O dia depois de amanhã para a segurança privada


por Emir Pinho em Artigos / Principal / 21 de junho de 2018

Estamos vivendo um dos momentos de maiores mudanças nas relações comerciais em todo planeta. Clientes, assinantes, contratantes, regras, valores e exigências já não são iguais. E as empresas de segurança também mudarão…ou vão sumir!

Já não podemos mais apenas dizer que o mercado vai mudar. Na realidade o mercado já mudou. Os consumidores já mudaram. Os negócios mudaram…e muito! As relações entre compradores e fornecedores mudou! E vão mudar mais ainda. Tudo isso porque os conceitos continuam em permanente mudança e evolução e mostram que permanecerão nessa linha íngreme de completa transformação. E quem não entender isso, inevitavelmente vai ficar para trás e terminar chupando bala!

Essas transformações comerciais estão atingindo o setor de segurança privada com o impacto de um tremendo soco na boca do estômago!

Provando que a falta de preparo e a insegurança em seus processos de gestão e de gerenciamento administrativo, de posicionamento comercial, de perfil técnico e de atuação operacional estão sendo considerados duvidosos pelo mercado consumidor e, caso não sejam corrigidos e reinventados, serão bons motivos para serem abandonados pelos clientes em suas próximas decisões de compra ou contratação.

Os consumidores passaram a analisar mais profundamente e de forma mais precisa, o valor desses serviços, ou seja, quais os verdadeiros benefícios que os serviços de segurança representam ou podem representar em suas vidas, em seus negócios e em suas organizações orçamentárias.

É essencial salientar, que os tais benefícios não são mais aqueles que as empresas apontam e propagandeiam como um padrão, uma vez que essas mesmas empresas estão provando o contrário na execução de suas atividades cotidianas.

Padrão de qualidade é algo realmente raro de ser encontrado na maioria das empresas de todo o Brasil. E quando os encontramos, dificilmente são informados adequadamente para aos stakeholders – clientes internos, clientes externos, parceiros e fornecedores, assim como para o mercado em geral.

O fato é que as novas exigências do mercado contratante e consumidor apontam para a necessidade permanente de evolução e reinvenção dos modelos de negócios e dos métodos de prestação de serviços de segurança privada em todos os seus segmentos: vigilância patrimonial, segurança eletrônica (monitoramento de alarmes, monitoramento por imagens, rastreamento e monitoramento veicular, projetos e instalações de equipamentos e portaria remota) e empresas de terceirização de serviços (Facilities).

Na falta de modernização dos serviços oferecidos pelas empresas tradicionais e na ausência de evolução dos conceitos empresariais e de gestão dessas empresas, os modelos importados de negócios passaram a ser o próximo alvo na linha de consumo.

Nesse nível, estão os negócios com foco no volume e de valor diretamente alinhado aos benefícios oferecidos, que se traduzem num imediato reposicionamento pela procura e pela rápida decisão de compra. Os bons negócios baseados em aplicativos – os “Apps” – estão nessa faixa de oferta e já representam a mudança do perfil consumidor.

O modelo atual dos negócios abandona os velhos moldes de atendimento à consumidores e clientes e passa a oferecer serviços e soluções vinculados diretamente às assinaturas e ao oferecimento do poder de contratação e decisão de consumo por aquilo que atenda suas necessidades mais evidentes e satisfaça suas exigências e desejos. Simples assim! Os “novos assinantes” – antigos “clientes” – não estão mais dispostos a pagar por serviços que não usam, ou adereços que não lhes gera diferenciação nos resultados.

Portanto não basta mais o gerente da empresa bater no peito e dizer que sua empresa protege o veículo do cliente, vinculado ao alarme da residência. Afinal os clientes estão abolindo seus veículos, passando a usar bicicletas – tendência ecologicamente positiva e em franco crescimento – e quando necessitam usar outros deslocamentos, chamam um veículo pela Uber. Ou seja, o argumento do benefício hipoteticamente gerado pela tal “proteção estendida”, cai por terra e não representa benefício algum!

Cá para nós, o modelo de negócios da segurança eletrônica por exemplo, está baseado no ultrapassado e arcaico negócio onde uma empresa cria um pacote de hipotéticos serviços reativos, ou seja, que só entra em vigor e (espera-se) que seja executado após a violação do local para onde foi contratado. Isso não é um contrassenso?

 

“A verdadeira segurança inteligente é aquela que se antecipa aos riscos!” – Emir Pinho

 

Não seria correto e mais assertivo que a primeira oferta de modelo de segurança eletrônica fosse voltada para evitar as violações? Mas não é o que acontece! Conheço dezenas de empresas que negam monitorar ou atender eventos gerados por dispositivos de segurança perimetral.

Eu conheço centenas de empresas no Brasil inteiro. Pouquíssimas trabalham efetivamente na recomendação preventiva. E quando o fazem, estão subjugadas às decisões financeiras de aceite ou redução dos investimentos de seus contratantes. Normalmente aceitam essas reduções, reformam seus projetos, diminuem as recomendações, diminuem o poder de prevenção e acham isso normal! Vida que segue.

Afinal de contas o negócio de segurança eletrônica é visto apenas como um bom negócio de risco. Risco apenas para o cliente que paga a conta! No modelo atual, contratantes fazem de conta que contratam “segurança”. Fazem de conta que pagam. Sentem-se vitoriosos por diminuir em 50% o orçamento oferecido inicialmente pelas empresas de segurança, que por sua vez fazem de conta que o cliente estará protegido pois apostam suas fichas na hipótese e no risco de os criminosos escolherem seus alvos a esmo e por conveniência. E se ainda assim, os alvos (clientes) forem “violados”, tudo bem pois os projetos de segurança estão resumidos ao método reativo, o que não vai gerar tanto estresse para a empresa “protetora”!!

As empresas de segurança eletrônica, que adotam esse modelo em franco prenúncio de extinção, hoje representam um mero serviço de comunicação de invasões e disparos!

Muito pouco, se mirarmos onde e como essas empresas poderiam se tornar as maiores e melhores parceiras para gerir de verdade a segurança de seus assinantes.

Por esses e outros motivos, soluções disruptivas estão sendo criadas e prometem apontar os novos caminhos para a segurança no Brasil.

O ambiente está mais do que propício para isso! E a culpa é das próprias empresas e de seus empresários que ainda optam por se manterem agarrados ao “osso roído”. Parecem não enxergar que seus parcos crescimentos estão atrelados a meros repasses de índices inflacionários e também à ciranda de clientes que pulam de uma empresa para outra, quando sofrem os prejuízos das violações não contidas das insatisfações por não terem suas reivindicações atendidas pela empresa anterior. Trocam 6 por meia dúzia.

Essa onda disruptiva não está baseada apenas na segurança. Afinal de contas, não podemos deixar de lembrar as diversas mudanças no cotidiano das pessoas. Hoje dificilmente as pessoas chamam táxi… preferem acessar o app da Uber. Canais de televisão aberta e até mesmo a televisão convencional paga (aquela com a grade de programação pré-determinada) perderam centenas de milhares de espectadores para o Netflix, onde os assinantes é que montam seu cardápio de filmes e programas para assistir…quando e onde bem entenderem. E por um preço muito mais justo e alinhado.

Agora mesmo, por exemplo, esta edição do Jornal da Segurança está circulando nos corredores da Exposec. Quantos de nós, profissionais que atuamos no setor de segurança, chegamos de nossos estados de origem e ao sairmos do aeroporto, embarcamos num carro chamado pelo app da Uber? E ainda vamos nos hospedar num quarto confortável contratado por meio do Airbnb, que custará 1/3 ou ¼ dos valores de quartos de hotéis tradicionais. E no decorrer da noite ainda vamos fazer conferências pelo Skype e realizarmos chamadas por meio do WhatsApp.

E para sabermos como estão as coisas no nosso escritório, em inúmeras vezes vamos acessar as câmeras e o sistema de auto monitoramento que instalamos em nossas empresas. E quando retornarmos para casa, para termos uma chegada tranquila e acompanhada, vamos abrir um Chamado de Chegada Segura por meio do app Bairro Seguro. Pagando menos de R$ 100,00 por mês para isso!

Óbvio que alguns donos de empresa dirão que é muito barato. Mas em contrapartida, outros 600 ou 700 moradores do mesmo bairro apontarão que o preço é justo…e assinam o serviço!

Essa foi apenas uma forma muito rápida e simples para exemplificar como as coisas mudaram e estão mudando rapidamente. Hoje quem não corre, tem que voar!

Não sou profeta e nem desejo ser! Mas não posso fechar os olhos e nem tampouco me iludir com o que está acontecendo no Brasil. Ouso predizer que em cinco anos (ou menos) as empresas de segurança eletrônica atuais ou não existirão mais ou terão mudado significativamente suas formas de atuação no mercado, sob o risco de desaparecerem por terem sido abandonadas pelos clientes.

Ou mudam as empresas, ou os assinantes (antigos clientes) mudam de empresas.

 

“…em cinco anos (ou menos) as empresas de segurança eletrônica atuais ou não existirão mais ou terão mudado significativamente suas formas de atuação no mercado, sob o risco de desaparecerem…”– Emir Pinho

 

Para reinventar a empresa, será essencial que os conceitos, que os processos, procedimentos e que a aderência do negócio esteja alinhada àquilo que os assinantes consumidores desejam de verdade. Serão necessárias várias reinvenções. Será imprescindível quebrar paradigmas e dogmas. Mas é melhor fazer isso pelo amor do que pela dor! A antecipação pode reservar melhor posicionamento. Quem chega cedo, bebe água limpa!

Até agora, citei vários parágrafos sobre o momento das empresas de segurança eletrônica. Mas e sobre as empresas de vigilância patrimonial?

Da mesma forma, o cenário que ronda as empresas de vigilância no país, está sofrendo uma abordagem diferenciada, agressiva e sem precedentes em sua recente história. Uma das provas disso, pode ser apontada pela grande onda de fusões e compras de empresas do setor de vigilância patrimonial por outras empresas fortalecidas com capital multinacional ou por fundos de investimentos, o que pode agravar as relações mercadológicas com a diminuição de empresas e a respectiva diminuição da oferta, resultando em pressão por aumento de preços e concentração de capacidades operacionais. O que também pode resultar em riscos para o setor.

O fato é que as empresas de vigilância patrimonial, na grande maioria, concentram a maior estagnação de possíveis avanços e evoluções, resignando-se ao papel de meros expectadores e cumpridores de ordens pouco eficientes e de pouquíssima eficácia. Notem que eu afirmo isso apontando para a maioria e não para a totalidade. Ainda contamos com poucas, mas excelentes empresas no país, que ainda se salvam dessa maré invasiva e dos baixos índices de produtividade. Mas sozinhas, elas não são suficientes hoje para mudar o curso do navio.

Traduzindo isso em linguagem de mercado, genericamente os serviços de vigilância patrimonial representam preço alto, serviço caro, custo e insatisfação!

Não pensem que eu fico feliz em afirmar isso, pois todos sabem que minha origem profissional em segurança privada, há quase 20 anos, foi justamente atuando em empresas do segmento de vigilância patrimonial.

Tenho um respeito e um carinho grande pelos profissionais desse segmento, e justamente por esse respeito é que me sinto responsável por escrever aquilo que poucos tem coragem de falar.

Tenho visto muito show, muito brilho, muitas “plumas e paetês”. Mas tenho visto pouco conteúdo, pouca educação corporativa, pouca evolução nos métodos de direção e gestão dessas empresas.

Tenho visto muitas empresas ainda acorrentadas aos vínculos familiares que desrespeitam qualquer possibilidade de evolução profissional e que travam sistematicamente as mudanças vitais para o amadurecimento das empresas e do setor como um todo.

Estratégias são descartadas para que os vínculos familiares mantenham força, mesmo que isso mate o negócio um pouco mais, dia após dia. Mesmo que isso sangre as já estreitas e pequenas margens de rentabilidade dos negócios de vigilância patrimonial.

Parecem não ver e não se enxergarem responsáveis pelo assassinato de seus próprios negócios.

 

“…tenho visto pouco conteúdo, pouca educação corporativa, pouca evolução nos métodos de direção e gestão dessas empresas.” – Emir Pinho

 

Todos os números oficiais apontam para a diminuição do setor. Podemos estar caminhando para a franca extinção do setor. Empresas estão quebrando, milhares de postos estão sendo fechados. O setor privado estancou as contratações por todos os motivos apontados acima. O setor público, que sempre usou e abusou da utilização do serviço terceirizado, está comedido e receoso. E com isso todas as semanas sabemos de empresas que fecham suas portas na sexta-feira e não reabrem na segunda-feira.

E mesmo diante desse quadro, vejo empresários, gerentes e gestores como que anestesiados e sem o mínimo poder de reação!

Ou será que tudo isso faz parte de um maléfico plano subversivo de internacionalização de nossas empresas nacionais?

Seja como for, prefiro acreditar que o futuro do setor que decidimos abraçar profissionalmente, ainda tem salvação. Ainda tem cura. Ainda pode ser salvo, sem a necessidade chegar às cinzas para tentar renascer como uma fênix!

É para isso que os bons profissionais, as boas consultorias e as novas cabeças pensantes devem voltar suas atividades. Aumentar a produtividade, criar as práticas de vendabilidade, implantar padrões de qualidade, atingir Alta Performance e blindar comercialmente nossas empresas do setor, deve ser o nosso foco!

Tudo isso para iniciarmos imediatamente a escrever o dia depois de amanhã para a segurança privada!

Emir Pinho é palestrante, professor de segurança, formado em Gestão de Segurança Pública e Privada, Pós-Graduado e Especializado em Segurança Privada, com MBA em Gestão de Equipes e Liderança, Certificado CISI – Consultor Internacional de Segurança Integral, Análise de Riscos e Gestão de Perdas. CEO da EMP Consultoria e Treinamentos, membro associado à ABSEG e CEAS, criador das técnicas de vendabilidade  e organizador do site www.consultordeseguranca.com.br .

Este artigo foi publicado originalmente na revista Jornal da Segurança/Nº 286/Ed. Junho de 2018
Visite o site do JSeg em http://www.portaldaseguranca.com.br


Tags:, , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,


Eu quero mais artigos como este!


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *