96 mil carros sumiram no RS desde 2000


por Emir Pinho - Consultor de Seguranca - 51 9967 3306 - ID 9214136 em old / 13 de janeiro de 2009

Jornal Zero Hora – 11 de janeiro de 2009 | N° 15845

FURTO E ROUBO DE VEÍCULOS S.A.

96 mil carros sumiram no Estado desde 2000


Nos últimos nove anos, os ladrões simplesmente desapareceram com 96,4 mil carros das ruas do Rio Grande do Sul. Na prática, um veículo sumiu a cada hora. É como se, desde 2000, sumissem todos os veículos de Santa Maria, na região Central do Estado, obrigando 263 mil pessoas a andar a pé.

O número de automóveis consumidos pela indústria do furto e do roubo representa 36,7% do montante que vai parar nas mãos dos criminosos. Resulta da diferença entre o total de carros levados pelos bandidos (262,2 mil) e os recuperados (165,9 mil) pela polícia de 2000 a 2008, conforme estatística da Secretaria da Segurança Pública e da Polícia Civil.

É provável que parte dessa frota fantasma ainda exista. Estimativas policiais apontam que metade pode estar pendurada aos pedaços em prateleiras de ferros-velhos clandestinos. Outra parcela roda por aí com placas diferentes (clonadas de veículos em situação regular) ou pelo Paraguai ou Uruguai.

O certo é que os donos desses 96 mil carros, motos, caminhonetes e caminhões jamais viram o rastro deles. Ficaram apenas lembranças e traumas. Do Gol ano 1988, o caminhoneiro Carlos Afonso Petersen, 47 anos, ainda guarda o certificado de propriedade, a chave e o carnê de pagamento. O carro foi furtado em novembro de 2007, em frente à agência do Banco do Brasil, em Cachoeirinha, no momento em que ele quitava na boca do caixa a 11ª das 18 prestações do financiamento do automóvel.

– Para não ficar com o nome sujo no SPC (Serviço de Proteção ao Crédito), continuei pagando até o final. E gastei mais um pouco procurando pelo carro. Coloquei um anúncio e ainda tentaram me extorquir – lamenta Petersen.

O motoboy Gilberto Alves Silva, 27 anos, também foi vítima de ladrões no dia em que pagou a sexta parcela da Titan 125 zero-quilômetro. Os dois assaltantes que o atacaram no bairro Auxiliadora, na Capital, em setembro de 2006, levaram a moto e todos os seus pertences.

– Roubaram até o capacete. Perdi o emprego e tive de entrar na Justiça. Estou negociando reduzir a dívida da moto. Ainda faltavam 30 prestações – resigna-se Silva, atualmente em busca de uma vaga de motorista de ônibus.

Possivelmente, o Gol e a Honda foram picotados, e as peças revendidas para desmanches. Mas tudo indica que o Corolla da administradora Maria Cristina Teichmann, 50 anos, roubado no bairro Petrópolis, na Capital, há quase três anos, foi trocado por drogas ou armas na região da fronteira de Foz do Iguaçu (PR) com Ciudad del Este, no Paraguai.

– Soube que levaram para o Paraguai. Nem o chassi mudaram. Logo depois do assalto, jogaram meus documentos, cartões, cheques em uma lixeira. Queriam só o carro. Era encomenda – conta Maria Cristina, que recebeu um outro veículo da seguradora, mas não esquece o pavor de ser abordada por homens armados quando chegava em casa à noite com o marido.

30% dos veículos viram clone nas ruas

Um em cada três veículos que somem nas mãos de ladrões tem como destino a clonagem. Modalidade que faz três vítimas: o dono do carro roubado para ser adulterado, o que teve as placas copiadas e o que comprou o clone. Além de de ganhar dinheiro com a venda como se fossem veículos “quentes”, quadrilhas usam clones para praticar crimes sem se preocuparem com a identificação do veículo porque as suspeitas vão recair sobre os proprietários dos carros copiados.

Foi o que aconteceu há dois anos com um médico e professor universitário de 50 anos, morador de Porto Alegre. Durante dois meses, ele se viu obrigado a ir de táxi para o trabalho, com medo de ser confundido com os criminosos que usavam um Astra semelhante e com as mesmas placas do dele.

– Eles assaltavam, sequestravam pessoas. Quando soube que meu carro tinha sido clonado, a polícia já estava me seguindo a uns 10 dias. Imagina se os bandidos matam alguém, um policial? Quando eu saísse com o carro iriam atirar em mim antes de perguntar quem sou eu – desabafa a vítima, que pediu para ter o nome preservado.

O médico passou momentos de desespero. De três em três dias surgiam multas, a polícia não conseguia localizar o clone e o Astra dele, parado na garagem. Ele afirma que o sufoco acabou após a prisão de uma quadrilha pela Polícia Federal. Até as multas cessaram.

– Acho que os bandidos se apavoraram com a intervenção da PF. Foram os piores meses da minha vida. Tinha pedido ajuda para a polícia, para a EPTC, para o Detran e não conseguiram resolver o problema. Acabei vendendo o carro por um valor bem abaixo da cotação, com apenas um ano de uso e 11 mil quilômetros, e ainda estou recorrendo para anular multas. Considerando todos os gastos, perdi uns R$ 20 mil – lamenta o médico.

joseluis.costa@zerohora.com.br

JOSÉ LUÍS COSTA


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