Roubo de carros: Um calvário de 108 horas


por Emir Pinho - Consultor de Seguranca - 51 9967 3306 - ID 9214136 em old / 28 de abril de 2009

ROUBO DE CARROS

Um calvário de 108 horas

SÁBADO, 11 DE ABRIL

Aos 35 anos, casado, pai de um filho de cinco anos, um empresário que prefere preservar sua identidade chegava a uma loja, às 14h15min, no bairro São João, na Capital, quando dois ladrões lhe roubaram o carro que costuma usar aos finais de semana – uma Parati 2.0, 2004, com bancos de couro e rodas de liga leve.

Enquanto a vítima se recompunha do susto, testemunhas ligaram para o 190. Cerca de 10 minutos depois, um soldado do 11º BPM chegou de moto ao local. Percorreu duas quadras para ver se o carro poderia estar nas imediações e voltou para preencher uma ocorrência. Antes de ir embora, entregou um protocolo ao empresário e disse a ele que em um ou dois dias poderia pegar uma cópia da ocorrência em qualquer delegacia da Polícia Civil.

Sem carteira, documentos pessoais e de seu carro, cheques, cartões e chaves de casa, a vítima pegou uma carona para o bairro Partenon, onde mora, e mandou trocar as fechaduras da residência. O sogro do empresário, oficial da reserva da Brigada Militar, se prontificou em ajudar. Ligou para ex-colegas, pedindo para reforçar o alerta de roubo da Parati aos PMs que estavam nas ruas.

Às 23h20min daquele sábado, PMs do 9º BPM encontraram a Parati, intacta, com as portas travadas e sem chave, estacionada na Rua Ramiro Barcelos, no bairro Santana.

O carro foi guinchado até a 10ª Delegacia da Polícia Civil, no bairro Bom Fim, onde um plantonista registrou uma ocorrência de recuperação de veículo, lançando os dados do carro nos computadores da Polícia Civil. A vítima não foi informada. Instantes depois do registro, as informações ficam disponíveis a qualquer delegacia ou quartel da Brigada Militar, pois compartilham os mesmos bancos de dados.

De lá, após o registro de recuperação, o carro seguiu para o depósito da empresa Atento, credenciada pelo Departamento Estadual de Trânsito (Detran) para guardar veículos, na Avenida Ipiranga, no bairro Jardim Carvalho.

DOMINGO, 12 DE ABRIL

Sem saber do paradeiro da Parati, o empresário passou entristecido o domingo de Páscoa, dia da festa de aniversário do filho. Lembrou que não tinha renovado o seguro do veículo e que os bandidos levaram mais documentos do que os relatados ao PM.

SEGUNDA-FEIRA, 13 DE ABRIL

Na segunda-feira, a vítima deixou o trabalho em segundo plano e procurou a polícia. Foi na delegacia mais próxima, a 11ª DP, no bairro Partenon, distante quatro quadras da casa do empresário. Disse no balcão que pretendia um registro complementar sobre o sumiço de notas fiscais da empresa.

– Aqui não dá. Só na 3ª DP na Cristóvão Colombo, porque o roubo foi na área deles – adiantou-se o plantonista.

– Ele ainda me mostrou a tela do computador, dizendo que não era possível a inclusão de dados em um registro anterior – contou a vítima.

A solução foi pedir à 11ª DP uma cópia da ocorrência registrada pelo PM no sábado. Com o papel nas mãos, seguiu para a 3ª DP no bairro Floresta, delegacia responsável pelo inquérito e a investigação do crime. Depois de mais de 30 minutos de espera, foi atendido. Sentado diante de uma policial, explicou o caso, e ela redigiu um novo registro no computador, fazendo constar os dados que faltavam.

Enquanto isso, um funcionário do depósito incluiu os dados de recolhimento da Parati no sistema de controle do Detran. O empresário deixou a 3ª DP ao meio-dia. Até esse horário, o sogro dele já havia ligado duas vezes para amigos na BM. Inexplicavelmente, ninguém tinha novidades da Parati, recuperada 36 horas antes.

Depois do dia inteiro sem trabalhar, apenas com idas e vindas a delegacias e bancos, uma boa notícia: uma pessoa ligou dizendo que encontrou parte dos documentos do empresário a poucas quadras de onde ocorreu o assalto.

TERÇA-FEIRA, 14 DE ABRIL

O empresário retornou ao trabalho no Jardim Lindoia, zona norte da Capital, tentando colocar em dia o serviço atrasado. No depósito, técnicos do Departamento de Identificação deixaram de fazer a perícia no carro (coleta de digitais para tentar identificar os ladrões), por “culpa do dono do carro”. Ele não tinha aparecido com a chave para abrir o veículo.

No meio da tarde, o sogro do empresário aguardava por notícias.

– Deixei nossos telefones. Se o carro aparecer, vão nos ligar – acreditava.

Ao entardecer, ele ligou para um conhecido na BM, que localizou um registro de recuperação de veículo. A vítima deveria ir até a 10ª DP para oficializar a devolução do veículo. Avisado, o empresário abandonou o trabalho às 17h na Zona Norte e foi para o Bom Fim. Na delegacia, o plantonista exigiu os documentos da Parati. A vítima não os tinha. Os ladrões levaram o certificado de licenciamento, e o certificado de propriedade estava em casa. O empresário foi até ao Partenon e não encontrou o documento.

– Fui a um CRVA (Centro de Registro de Veículos Automotores) mais próximo de casa pegar uma segunda via do certificado, ali, na Ipiranga, mas me atrasei. Tinha fechado fazia cinco minutos – lamentou o empresário.

O jeito era deixar para pegar o carro no dia seguinte. Na 10ª DP, o plantonista prometeu deixar a ocorrência semipronta para agilizar a liberação do carro. À noite, o empresário achou em casa o certificado de propriedade da Parati.

QUARTA-FEIRA, 15 DE ABRIL

De volta à delegacia, na quarta-feira pela manhã, relatou o caso a outro plantonista.

– Não tem nada aqui, tem de fazer tudo de novo – disse o policial.

Em pé, diante do balcão, o empresário aguardou por 55 minutos o plantonista registrar a ocorrência de devolução e preencher um ofício para retirar a Parati. Na saída da delegacia, uma surpresa ao ler a última linha do documento: “liberar o veículo após perícia”.

Às 10h15min, o empresário chegou ao depósito, e ouviu, desolado, uma funcionária dizer:

– O carro não vai ser liberado hoje. O pessoal da perícia já esteve aqui e foi embora. Não sei quando eles voltam. Tem de deixar a chave do carro e telefonar para saber se foi periciado. E, depois, se não buscar, a partir do segundo dia, é cobrada diária de R$ 10,78.

O empresário pediu para ver o carro, mas não lhe foi permitido o acesso. O veículo foi periciado às 15h20min de quarta-feira, com resultado negativo (sem fragmentos de digitais que pudessem levar à identificação dos assaltantes). Ou seja, de nada adiantou a vítima esperar pela perícia.

QUINTA-FEIRA, 16 DE ABRIL

Último ato da via-sacra do empresário, ele voltou ao depósito às 8h45min, com o sogro. Uma funcionária exigiu que assinasse um termo, atestando que recebia a Parati em situação regular. Ele retrucou:

– Como vou assinar. Não vi o carro?

Iniciou-se uma discussão. A funcionária fechou o guichê e disse que aguardaria a chegada de PMs. Oficial da reserva da BM, o sogro do empresário perdeu a paciência. E disse que poderia prender a funcionária por abuso de autoridade. PMs foram ao local e logo saíram, contrariados com o chamado. Serenados os ânimos, o empresário verificou as condições do carro, assinou o termo de recebimento, mas o motor não ligava por causa de um cabo de bateria rompido. Voltou em casa, pegou alicate e fios e emendou os cabos. Às 11h15min, saiu dirigindo o automóvel do depósito. Chegava ao fim a saga de uma vítima de roubo de carro. A Parati tinha ficado nove horas nas mãos dos bandidos e 108 (nove vezes mais) em poder da burocracia.

– Podia ser bem mais simples. O assalto foi menos problemático do que a recuperação – diz o dono.

O QUE FAZER EM CASO DE…

…ROUBO OU FURTO DE VEÍCULO

– Ligue para o 190, informando a placa, cor e outros detalhes do carro. Se tiver condições, relate as características dos assaltantes. O alerta pode ajudar a localizar o veículo com rapidez e até a prisão em flagrante dos ladrões

– Vá a delegacia da Polícia Civil mais próxima para o registro da ocorrência. Informe todos os pertences levados pelos bandidos para evitar novos prejuízos, caso seus documentos sejam utilizados por terceiros. Uma cópia do registro é fornecida na hora. Ela é necessária para acionar a companhia de seguros do automóvel

– Entre em contato de imediato com bancos, lojas e operadoras de crédito, solicitando o bloqueio de cartões e talões de cheques e ligue para o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC). Na Capital, o número de atendimento 24 horas é o 0800-6018001

 

…O VEÍCULO SER RECUPERADO

– Ligar para qualquer delegacia da Polícia Civil no Estado. Os telefones podem ser obtidos pelo 3288-2400, uma central de atendimento da Polícia Civil que funciona 24 horas ou consultar os números no site www.pc.rs.gov.br

– Ligar para o Disque Detran 0800-5103311 das 8h às 20h de segunda a sexta-feira

– Consultar o site da Secretaria de Segurança Pública www.ssp.rs.gov.br e clicar no link cadastro furto/roubo de veículo

 

Contraponto

O que diz o subchefe da Polícia Civil, Álvaro Steigleder Chaves

É difícil investigar caso a caso os roubos e furtos de veículos. Temos uma delegacia especializada que atua em cima de quadrilhas. Mas quando uma pessoa sofre uma violência que o Estado foi incapaz de impedir, devemos minimizar essa dor. É preciso analisar os casos pontuais para verificar o que ocorreu. Se houve falha, vamos corrigir. Um crime pode ser registrado em qualquer delegacia. As pessoas não devem ligar para o 190. A orientação ao policial de plantão é avisar a vítima sobre a recuperação do carro e informar quais os documentos ela tem de apresentar. Os sistemas de ocorrência e de veículos são diferentes. Mas, em 90% dos casos, o policial consulta a situação do carro por iniciativa dele ou a pedido da vítima. O que aconteceu é exceção.

O que diz o delegado Ajaribe Rocha Pinto, da 10ª DP

O órgão que recupera um carro tem obrigação de avisar. Pode ter ocorrido uma falta de cuidado. Lamentavelmente, o plantonista é sobrecarregado. Há grande preocupação com o furto e o roubo na nossa área e não estamos aqui para complicar. Vou orientar os policiais para evitar o bate e volta na delegacia

O que diz o coronel João Carlos Trindade, comandante da BM

Quando um PM localiza um carro, ele deve chamar o guincho e apresentar na Polícia Civil. A orientação é não fazer contato com o proprietário para evitar algum mal entendido, até porque, é a Polícia Civil que vai liberar o veículo para a vítima. O 190 é um telefone de emergência, não deve ser usado para pedido de informações porque vai entupir as linhas.


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